Quando ela entrou à casa, notou que as paredes estavam sem reboco. Três peças compunham o pequeno lar. A cozinha tinha armários vermelhos, geladeira e fogão de segunda mão. O vitrô deixava passar pouca ventilação e nele havia uma cortina de tecido sintético, presa por um arame. Tudo era muito simples, mas nada ganhava da simplicidade da dona da casa, que recebeu Ana com todos os carinhos e mimos que conhecia. Eram poucos, eu sei. Mas eram os únicos de que dispunha. Pediu que a moça se sentasse na cadeira de pés cromados, forrada com lâmina vermelha e, de pronto, ofereceu um café. Ana aceitou. A mulher tirou da garrafa térmica o café passado pela manhã e serviu num copo tipo americano. Eram três da tarde Ana olhou o copo, olhou o líquido sem calor que ele continha, pensou em como vivia a repetir que só tomava café em xícara, e passado na hora. Deixou para trás tudo do que gostava e sorveu a bebida, e saboreou a conversa simplória daquela mulher de vida sofrida, de cujos olhos saltava a esperança.