O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná (MPPR), cumpriu 17 mandados de busca e apreensão nesta segunda-feira (26) para investigar um suposto esquema de desvio de recursos que deveriam ser destinados a entidades beneficentes. A Operação Samaritano apura prejuízo estimado em R$ 36,9 milhões e possíveis práticas de lavagem de dinheiro.
As ordens judiciais, expedidas pela 3ª Vara Criminal de Londrina, foram cumpridas em Londrina, Ibiporã e Maringá, no Paraná, além da capital paulista e de Itupeva (SP).
As investigações começaram em 2021 e apuram possíveis irregularidades envolvendo uma distribuidora de títulos de capitalização sediada em Londrina e empresas ligadas a ela. Entre as possíveis vítimas estão a Federação Nacional das Apaes (Fenapaes), a Irmandade Santa Casa de Londrina e o Hospital do Câncer de Londrina.
Segundo o Gaeco, a distribuidora teria retido parte dos valores que, conforme as regras da Superintendência de Seguros Privados (Susep), deveriam ser repassados às entidades beneficiárias.
Até 2019, títulos de capitalização filantrópicos eram vendidos em campanhas em benefício da Fenapaes. A distribuidora concentrava a arrecadação e descontava despesas antes de prestar contas à entidade. Conforme a investigação, os gastos teriam sido inflados com notas fiscais sem lastro, duplicadas ou relativas a serviços prestados a outras empresas dos investigados. Parte dos documentos seria emitida por empresas de fachada abertas em nome de funcionários e distribuidores.
A partir de 2020, mudanças nas regras determinaram que as sociedades de capitalização depositassem diretamente os valores de resgate nas contas das entidades, reduzindo a atuação de intermediários. Os investigadores suspeitam que o modelo tenha sido adaptado por meio de contratos de “promoção de vendas” supostamente irregulares.
Entre março de 2020 e maio de 2022, a Santa Casa de Londrina transferiu R$ 33,16 milhões à distribuidora. Já o Hospital do Câncer repassou R$ 3,75 milhões entre julho de 2020 e abril de 2021. Documentos fornecidos pelo hospital indicariam que a prática continuou com empresas sucessoras, sob nova marca, pelo menos até 2024.
As buscas desta segunda-feira têm como objetivo reunir provas sobre o funcionamento dos contratos e o destino dos recursos. A investigação também apura se o dinheiro teria passado por diferentes etapas para ocultar sua origem, incluindo empresas registradas em nome de familiares dos sócios, utilizadas, em tese, na compra de imóveis e veículos de luxo.
São investigados possíveis crimes de apropriação indébita, estelionato contra entidades beneficentes, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Além das buscas, a Justiça determinou o sequestro de imóveis e o bloqueio de valores até o limite de R$ 36.913.661,48.