“A vida é um dia” revisita a história de Londrina com dança, música e poesia

Espetáculo do Ballet de Londrina e da Orquestra Bravi será apresentado de 19 a 21 de agosto, no Teatro Ouro Verde

Por
8 Min

Fábio Alcover/Divulgação

Em celebração aos 100 anos de Londrina, o Ballet de Londrina, com participação da Orquestra Acadêmica Bravi, apresenta “A vida é um dia”, espetáculo que reúne dança, poesia, música, teatro e cenografia para revisitar a história da cidade a partir da trajetória de uma mulher quase centenária. As apresentações serão nos dias 19, 20 e 21 de agosto, às 20h, no Teatro Ouro Verde, na Rua Maranhão, 85, Centro. Os ingressos antecipados custam R$20 mais a taxa, com meia-entrada para todo o público, e estão disponíveis pelo Sympla. A realização é da Fundação Cultura Artística de Londrina (Funcart) e da Secretaria Municipal de Cultura.

Baseado no poema homônimo de Renato Forin Jr., “A vida é um dia” acompanha uma mulher internada em uma UTI durante a pandemia da Covid-19. Entre memórias e alucinações, a personagem atravessa diferentes períodos de sua vida, que também correspondem a momentos marcantes da história londrinense, como o processo de colonização, a geada de 1975 e a efervescência artística da cidade.

Ballet-Londrina-espetaculo-A-vida-e-um-dia-Fabio-Alcover-3.jpg?resize=299%2C449&ssl=1 foto: Fábio Alcover

O texto foi escrito por Renato entre 2020 e 2021, durante a pandemia, a convite da Orquestra Bravi. A proposta inicial era produzir quatro poemas sobre a história de Londrina, mas o artista decidiu criar um épico dividido em quatro partes e transformar a própria cidade em uma personagem feminina. “Eu resolvi então escrever um épico dividido em quatro partes, em que Londrina não aparecesse como uma cidade de forma abstrata, mas que fosse incorporada nos sentimentos, nas dores, nos traumas e nas alegrias de uma personagem feminina, que tem a mesma idade da cidade”, relatou Renato.

A origem da protagonista também amplia essa perspectiva. Descendente de caingangues e negros, a personagem carrega uma história anterior ao processo de colonização apresentado pelas narrativas tradicionais sobre a formação de Londrina. “A vida é um dia vem de uma história de Londrina por uma perspectiva renovada, atualizada e mais factível, do que aquela de uma história oficial, que sempre trouxe a informação de que a divisão de lotes no norte do Paraná aconteceu a partir de um vazio demográfico”, pontuou Renato.

Da poesia para o palco

A transformação do poema em espetáculo partiu da assistente de direção e produtora do Ballet de Londrina, Danieli Pereira, que propôs levar a obra para o palco tendo a dança como protagonista. Para desenvolver a coreografia, ela convidou Alex Soares, coreógrafo de São Paulo atualmente radicado na Dinamarca.

O processo de criação começou a partir do contato de Alex com diferentes versões da obra. Depois de conhecer o livro de poemas e as adaptações musicais, o coreógrafo investigou como o corpo poderia dialogar com as palavras sem simplesmente reproduzi-las. “Os movimentos vão fazendo, vão deixando mais complexa a maneira que a gente escuta os poemas”, observou Alex.

A proposta foi construir uma camada visual capaz de ampliar os sentidos do texto, sem transformar a coreografia em uma tradução literal da narrativa. “Nunca foi pensado, cogitado, que o movimento fosse virar uma legenda daquilo que ele estava falando”, ressaltou o coreógrafo.

Durante os ensaios, os bailarinos experimentaram cenas e movimentos para perceber como os gestos poderiam dialogar com os ritmos, pausas e diferentes atmosferas presentes no poema. A construção das diferentes facetas da protagonista também foi trabalhada pela subjetividade corporal. “A gente foi desenvolvendo também ao longo da pesquisa, nunca tendo uma legenda, mas sim abrindo mais uma camada que venha através da subjetividade do corpo”, acrescentou Alex.

Para o coreógrafo, reunir dança, música e poesia em um mesmo processo representou um desafio para a companhia. “Foi um processo muito desafiador. A gente nunca tinha feito isso, em que tem dança, música e poesia”, avaliou.

Ballet-Londrina-espetaculo-A-vida-e-um-dia-Fabio-Alcover-2.jpg?resize=312%2C468&ssl=1 foto: Fábio Alcover Música e poesia no mesmo palco

A Orquestra Bravi já havia participado de uma versão da obra em 2021, mas a nova montagem propõe uma relação diferente entre narrativa e composição musical. Na primeira versão, Renato recitava o texto e, posteriormente, a orquestra interpretava a obra. Agora, as duas linguagens acontecem simultaneamente em diversos momentos.

Para o regente Jhonatan Santos, essa sobreposição exige precisão dos músicos para que palavra e música se encontrem no mesmo andamento. “Em vários momentos, texto e música acontecem simultaneamente, sobrepostos. E isso traz um desafio muito grande para a orquestra: é preciso construir um andamento em que a parte musical comece e termine em diálogo muito preciso com o texto”, detalhou.

A presença da narrativa também influenciou as escolhas musicais. Enquanto a orquestra utiliza melodias e ambientes sonoros para construir sensações, o texto já conduz parte das emoções do público. “O texto conduz o ouvinte para determinadas intenções musicais e para os efeitos que a orquestra produz, principalmente por meio das melodias: uma melodia mais triste, outra mais tensa, determinados ambientes sonoros que ajudam a construir essas diferentes atmosferas”, descreveu Jhonatan.

A combinação levou o regente a aproximar a experiência da estrutura de uma ópera. “Em alguns momentos, inclusive, eu comparei essa experiência com uma ópera para os próprios músicos da orquestra. O que faltaria para essa obra ser uma ópera, digamos assim, seria a presença do canto, da voz dos cantores”, comentou.

A participação no espetáculo também representou uma etapa de amadurecimento para a Orquestra Bravi, que mantém um trabalho continuado há nove anos. A montagem ampliou o desafio técnico do grupo ao exigir diálogo constante com texto, bailarinos e elementos cênicos. “Essa mistura de linguagens, esse trabalho que eu chamaria de poli artístico, coloca a Orquestra Bravi em mais uma etapa de amadurecimento técnico e artístico”, afirmou Jhonatan.

As composições originais são assinadas pelos londrinenses Erisla Pastore e Daniel Simitan. Para Jhonatan, a música se soma à literatura de Renato, à coreografia e à cenografia na construção da experiência. “É um trabalho que reúne também a profundidade literária dos textos de Renato Forin, a coreografia, a cenografia e a música”, avaliou.

Uma Londrina de contrastes

Os contrastes presentes na trajetória da protagonista também aparecem na construção visual e conceitual da montagem. Cores, movimentos, teatralidade, cenografia e figurinos aproximam diferentes períodos e características de Londrina.

Para Renato, essas contradições fazem parte tanto da personagem quanto da identidade da cidade. A montagem coloca em relação paisagens modernas e rurais, tradição e progressismo, além de diferentes momentos de transformação social e cultural. “Essa ação, o contraste, que chega até as contradições, são características da personalidade dessa mulher e, por óbvio, refletem a identidade da cidade”, observou.

A cenografia foi criada pelo próprio Renato, enquanto os figurinos são assinados por Cássio Brasil e contam com mais de 50 peças. Os elementos visuais ajudam a construir uma Londrina que aparece menos como cenário e mais como parte da própria protagonista.

Na coreografia, os movimentos acompanham as mudanças de atmosfera e os diferentes estados da personagem, sem estabelecer uma única interpretação possível. “É muito bonito ver porque, de certa maneira, parece que as linguagens vão se completando, vão se complementando durante a fruição da obra”, afirmou Alex.

A integração entre as linguagens é uma das principais características da montagem. Para Jhonatan, o encontro entre dança, música, poesia e demais elementos permite uma aproximação diferente com a história do município. “Cada uma dessas linguagens contribui para que o público não apenas conheça ou reconheça momentos da história de Londrina, mas possa senti-los e vivenciá-los de uma maneira diferente”, destacou.

Alex também espera que a obra desperte no público uma aproximação maior com a história da cidade. “Espero que o público se reconheça nesse trabalho e que o público também da cidade, que às vezes não conhece a história da cidade, possa ser ignição para que as pessoas mergulhem mais na história da cidade”, projetou.

Serviço

“A vida é um dia”

Dias: 19, 20 e 21 de agosto, às 20h
Onde: Teatro Ouro Verde – Rua Maranhão, 85, Centro
Ingressos: R$20 + taxa, com meia-entrada para todo o público. Vendas antecipadas pelo Sympla.
Realização: Fundação Cultura Artística de Londrina (Funcart) e Secretaria Municipal de Cultura
Patrocínio: Prefeitura Municipal de Londrina e BCALDI
Apoio institucional: Casa de Cultura da UEL e Rádio UEL FM
Apoio cultural: Festival de Dança de Londrina

Ficha técnica:
Coreografia: Alex Soares
Dramaturgismo, cenografia e direção artística: Renato Forin Jr.
Direção do Ballet de Londrina: Marciano Boletti
Idealização e produção: Danieli Pereira
Figurinos: Cássio Brasil
Composições originais: Daniel Simitan e Erisla Pastore
Regência da Orquestra Bravi: Jhonathan Santos
Produção da Orquestra Bravi: Thalita Alcântara

Texto: Laura Gonçalves, sob supervisão dos jornalistas do Núcleo de Comunicação (N.Com) da Prefeitura de Londrina