Voo que saiu de Cascavel e caiu: quem são os 16 indiciados pela tragédia da Voepass
Polícia Federal apontou falhas técnicas e condutas operacionais no acidente que matou 62 pessoas em 2024
SSPSP Reprodução
O acidente com o voo 2283 da Voepass, que decolou de Cascavel, no Oeste do Paraná, com destino ao Aeroporto de Guarulhos (SP), terminou com 62 mortos e levou a Polícia Federal a indiciar 16 pessoas ligadas à companhia aérea. A aeronave caiu em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024, em uma das maiores tragédias da aviação brasileira.
Entre os indiciados estão executivos, diretores, profissionais de manutenção, pilotos e despachantes que, segundo a investigação, tiveram diferentes níveis de envolvimento em falhas relacionadas à operação e à manutenção da aeronave. A lista inclui o proprietário da Voepass, José Luiz Felício Filho, e o diretor de manutenção Eric Cônsoli.
A investigação apontou uma sucessão de fatores que contribuíram para o acidente, entre eles condições meteorológicas adversas, formação severa de gelo, problemas no sistema de degelo da aeronave e falhas na comunicação e no registro de ocorrências de manutenção.
A aeronave, um ATR 72, saiu de Cascavel às 11h58 daquele 9 de agosto, levando 58 passageiros e quatro tripulantes. O voo transcorreu normalmente até o início da tarde, quando a aeronave deixou de responder às chamadas da torre de controle.
Quem são os 16 indiciadosJosé Luiz Felício Filho
Proprietário da Voepass, foi incluído entre os indiciados pela investigação que apurou responsabilidades relacionadas à operação da companhia.
Marcel Sarquis Moura
Diretor de Operações da empresa, foi indiciado por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo e ao acidente com resultado de morte.
Raphael Limongi de Figueiredo
Chefe do Centro de Controle Operacional (CCO), também foi indiciado por condutas relacionadas à segurança operacional.
Rafael Gimenez Rodrigues
Piloto-chefe e responsável pelo Programa de Monitoramento de Dados de Voo, aparece entre os investigados pelos mesmos fatos relacionados à segurança da operação.
Eric Cônsoli
Responsável técnico pela manutenção da Voepass perante as autoridades aeronáuticas, foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo e por sinistro aéreo com resultado de morte.
David da Costa Faria Neto
Diretor de Segurança Operacional, foi indiciado por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo e ao acidente.
Tiago Passucci Morani
Gerente de Engenharia e inspetor-chefe da companhia, também aparece entre os profissionais indiciados.
Edson Serra Martins
Comandante do voo PTB2293, foi indiciado por falsidade ideológica. Segundo a investigação, ele teria deixado de registrar no Diário de Bordo falhas observadas durante um voo realizado horas antes do acidente.
Luciano Alves de Macedo
Comandante do voo PTB2204, realizado na madrugada do acidente, foi indiciado por sinistro aéreo com resultado de morte. A investigação aponta que ele teria enfrentado problemas relacionados ao sistema de degelo que não foram registrados posteriormente.
Juliano Flores Pacheco
Gerente do Centro de Controle de Manutenção (MCC), foi indiciado por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo e ao acidente.
William Schmidt Agatz
Gerente do Centro de Controle Operacional (CCO), também foi incluído na investigação por condutas relacionadas à segurança da operação.
Oderlino de Campos Figueiredo
Despachante operacional dos voos PTB2293 e PTB2204, foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo.
Alex de Souza Leandro
Mecânico responsável pela liberação diária da aeronave e pelo fechamento da lista de restrições de voo na madrugada anterior ao acidente. Foi indiciado por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo e ao acidente com resultado de morte.
Marcos Hiroyuki Sato
Despachante operacional de voo, foi indiciado por sinistro aéreo com resultado de morte. Segundo a investigação, ele participou do despacho da aeronave mesmo diante de condições que exigiam atenção operacional.
John Major Viana
Também despachante operacional, foi indiciado por atentado contra a segurança do transporte aéreo. A investigação apontou sua participação no despacho de voos anteriores da mesma aeronave em condições meteorológicas com possibilidade de formação de gelo.
Carlos Alberto Costa
Diretor de Manutenção da Voepass, foi indiciado por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo e ao acidente.
Um dos pontos destacados pela investigação envolve registros de problemas apresentados pela aeronave antes do voo que saiu de Cascavel.
Segundo o relatório, falhas relacionadas ao sistema de degelo teriam sido identificadas em voos anteriores, mas não foram devidamente registradas nos documentos de manutenção. A investigação também apontou problemas na forma como informações operacionais eram comunicadas e tratadas dentro da companhia.
No caso do comandante Edson Serra Martins, por exemplo, a Polícia Federal identificou divergência entre problemas observados durante um voo realizado entre Guarulhos e Ribeirão Preto e o registro feito no Diário de Bordo.
Outro voo, comandado por Luciano Alves de Macedo, teria apresentado dificuldades relacionadas ao sistema de degelo. A ausência de registros sobre essas ocorrências também foi considerada pela investigação.
Acidente teve forte impacto no ParanáPor ter partido de Cascavel, o acidente teve repercussão especialmente forte no Paraná. A cidade se tornou ponto de apoio para familiares das vítimas e para o trabalho de identificação dos corpos. A Polícia Científica do Paraná chegou a atender 26 famílias em Cascavel nos primeiros dias após a tragédia e realizou coleta de material genético para auxiliar na identificação das vítimas.
A tragédia também atingiu diretamente o Estado: oito servidores públicos do Paraná estavam entre as vítimas. Após o acidente, o governo estadual decretou luto oficial de três dias.
Voepass nega falhas de segurançaEm manifestação sobre as conclusões da investigação, a Voepass afirmou que a segurança operacional sempre foi prioridade e que a companhia seguia os protocolos estabelecidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A empresa também sustentou que os pilotos eram experientes, habilitados e treinados para atuar em condições de formação de gelo. Segundo a companhia, os dois profissionais que comandavam o voo 2283 acumulavam mais de 5 mil horas de voo e receberam treinamento específico para esse tipo de situação.
A Voepass afirmou ainda ter colaborado com as autoridades durante as investigações.
Importante: o indiciamento não significa condenação. A conclusão da Polícia Federal será encaminhada ao Ministério Público, a quem cabe avaliar a adoção das medidas judiciais cabíveis. As operações da Voepass foram posteriormente suspensas pela Anac, que informou que a empresa deixou de ter autorização para operar voos no Brasil em março de 2025