Por uma cidade sem racismo, Maringá lança ‘Pacto por um Viver Antirracista’
Iniciativa abre uma trilha de cinco encontros e amplia o diálogo sobre igualdade, diversidade e respeito
Rafael Macri/PMM
“Já passamos daquele momento de entender que o racismo é um fenômeno social que atrapalha a construção da democracia brasileira”, enfatizou o professor doutor Delton Felipe durante o lançamento do ‘Pacto: Maringá por um Viver Antirracista’. O evento ocorreu na manhã desta quinta-feira, 6, no Auditório Hélio Moreira.
Com o espaço em sua capacidade máxima, servidores públicos e representantes da sociedade civil participaram do curso de Letramento Racial e discutiram caminhos para fortalecer as políticas de igualdade racial. Promovido pela Prefeitura de Maringá, por meio da Secretaria de Juventude, Cidadania e Migrantes (Sejuc), o projeto foi viabilizado com recursos de fundo estadual. A iniciativa tem foco na formação de servidores públicos que atendem diariamente a população. Devido à alta procura, o curso de Letramento Racial será realizado em cinco etapas ao longo deste ano, com atividades voltadas a profissionais das áreas de Educação, Saúde, Recursos Humanos. A proposta é ampliar o projeto até 2027, com novas ações desenvolvidas em parceria com diferentes setores.
O palestrante, professor doutor de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Delton Felipe, salientou que a igualdade racial deve estar presente em todas as áreas da gestão. “Uma cidade melhor para viver precisa ser melhor para todos e todas. Ela não pode ter o racismo como impedimento ao acesso dos serviços públicos e deve estar representada em sua diversidade em todas as esferas”, destacou.
A secretária de Juventude, Cidadania e Migrantes, Sandra Franchini, ressaltou que o projeto busca fortalecer o respeito e valorizar a diversidade. “Essa capacitação é um instrumento para uma nova construção. Uma construção que promove conhecimento e reflexão e contribui para a formação de uma sociedade mais justa e igualitária. Esperamos que cada participante saia daqui com aprendizado, mas, principalmente, com o compromisso de colocá-lo em prática. O conhecimento só faz sentido quando gera mudança e quando a sociedade assume esse pacto de forma concreta”, afirmou.
A superintendente da Secretaria de Juventude, Cidadania e Migrantes, Ana Paula Volpato, destacou que a proposta é ampliar o acesso ao curso e formar novos multiplicadores. “No próximo ano, vamos continuar o curso de Letramento Racial para atender quem não conseguiu participar desta edição. Queremos ampliar cada vez mais o número de multiplicadores, para que os servidores conheçam as leis e compartilhem esse aprendizado com toda a sociedade de Maringá”, disse.
A formação busca contribuir para que gestores e lideranças reconheçam essa responsabilidade e incorporem a pauta às diferentes áreas da administração. “Essa trilha de aprendizagem é um pacto do poder público, da sociedade civil e dos movimentos sociais para construir estratégias de combate ao racismo. Os encontros são destinados a pessoas que querem compreender como o racismo funciona e, acima de tudo, como podem enfrentá-lo a partir de suas instituições”, afirmou Delton Felipe.
O encontro apresentou aspectos da elaboração, da aplicação e da gestão de políticas de promoção da igualdade racial. A discussão abordou temas como diversidade nos espaços de decisão, reserva de vagas, ações formativas e previsão orçamentária para garantir a continuidade das políticas públicas.
“O professor Delton mostrou, de forma didática, que não basta não ser racista: é preciso ser antirracista. Os setores público e privado devem fazer parte dessa construção para alcançarmos uma sociedade mais justa e igualitária”, contou a servidora Silvana Sanches.
O professor ressaltou que o pacto dá continuidade a uma mobilização construída há décadas pelo movimento negro de Maringá. Entre as experiências locais reconhecidas está o ‘Festival Afro-Brasileiro', citado em pesquisa nacional como uma boa prática de promoção da igualdade racial e enfrentamento ao racismo.
“Estou muito feliz com este momento, porque o letramento racial é necessário e chega para agregar muito aos servidores. Precisamos compreender melhor o tema e ampliar esse conhecimento. Espero que esta seja a primeira de muitas formações”, argumentou a professora aposentada, Gilda Amâncio.
Para Delton, ações efetivas também dependem de planejamento e orçamento. “Não se constroem políticas de combate ao racismo sem recursos. Estar no orçamento significa estar no planejamento”, frisou.
A gerente de promoção da igualdade racial, Odília Barbosa, pontuou que o racismo ainda produz desigualdades que afetam o acesso à educação, à saúde, ao mercado de trabalho, à cultura, à segurança e à participação social. “Enfrentá-lo é um dever do poder público e é uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade”, disse.
“Uma cidade verdadeiramente desenvolvida não se mede apenas pela qualidade de sua infraestrutura ou pelos indicadores econômicos. Ela se mede, principalmente, pela forma como trata as pessoas, pela capacidade de garantir a oportunidade, o respeito e os direitos de todos, sem distinção”, completou.
O servidor Saulo Gaspar esboçou que o curso amplia o conhecimento sobre uma temática ainda pouco discutida. “O Pacto Antirracista fortalece a inclusão e ajuda a enfrentar preconceitos no município. Com o professor Delton Felipe, que é referência na área, temos a oportunidade de compreender melhor as leis e avançar na conscientização da sociedade”, destacou.