Quando eu era criança, meu pai, cuja escrita se limitava a escrever o próprio nome, e a leitura, por sua vez, a saber decifrar os números, fazia uma colinha com números para levar consigo às urnas. Fez isso a vida toda e escondia o máximo possível o papelzinho, porque o voto era secreto. E quando ele falava isso, era como um sussurro, porque só de sussurrar que o voto era secreto, alguém poderia ler seus lábios - e pensamentos - e adivinhar sua escolha nas urnas. E entre outras pessoas da família, o protocolo era similar, nos almoços aos Domingos rolavam comentários hipotéticos sobre quem votaria em quem, numa tentativa de adivinhar o segredo alheio. Tempo bom, pensei hoje sobre isso. Não porque, aos quase 50, sinto uma saudade infinita da minha infância, mas tempo bom porque a
banalização pública do voto revela mais exibicionismo do que consciência cívica. O voto, ao menos para minha família, era livre.
Assistimos, com intensidade cada vez mais acentuada, à superexposição das escolhas partidárias. O que torna o voto, um dos pilares da democracia, desprotegido, vulnerável a julgamentos, pressões morais e até a alinhamentos forçados, convencionais. No lugar de discutir ideias, discute-se força entre o candidato X ou o Y, pior ainda, não raro, discutem-se condenações, ações que em nada representam o ato reflexivo de escolher a quem direcionar o voto. Assim, votar deixou de ser fruto de reflexão, de escolha pessoal forjada ao ouvir, hipotetizar, refletir, escolher e, aí sim, sair correndo fazer a colinha para não errar os números dos candidatos, e passou a ser um fator de disputa ideológica, de exibicionismo vão e, sobretudo, de intrigas várias. Em ano de eleição, é bom lembrar que a democracia não se fortalece com exposição de ideologias, antes, porém, o fôlego democrático advém das escolhas individuais, discretas e silenciosas, mas isentas de interesses e jogos ou pressões morais.