Saudade é mesmo um estranho sentimento, ainda mais quando ela vem daquilo que a gente não viveu. Cresci ouvindo histórias contadas pelo meus nonos, minha mãe e meus tios sobre como era a vida décadas atrás, no sítio, com os nonos de minha mãe vivos. Não esqueci nenhuma delas, tem histórias de animais, de fantasmas, de oportunistas, de casamentos comemorados na simplicidade rural, de traições, de mortes de bebês, de brigas intermináveis. Na verdade tem história que não acaba mais. E não acaba mesmo. Os anos as mantiveram vivas em mim. E estou falando delas aqui por um motivo muito justo, ficaram ainda mais vivas nesses últimos dias. Ganhei de três amigas preciosas a trilogia de José Clemente Pozenato. O autor não se tornou tão conhecido quanto sua obra. “O quartilho”, livro que abre a trilogia, composta ainda por “A cocanha” e “Babilônia”, lançado em 1985, foi adaptado para o cinema e, em 1996, concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Baseado em fatos reais, percorrer as páginas dos 3 livros foi, para mim, muito maior do que assistir ao filme. Senti uma saudade imensa das histórias que envolveram minha infância. Saudade da nona de minha mãe, que eu nem sequer conheci, saudade da minha nona preparando pão e outros pratos, de meu avô cantando cantigas num italiano já misturado, saudade das histórias das durezas reservadas a tantos imigrantes e refratadas pelas personagens femininas de Pozenato, saudade ainda da velha expressão “vai se lavar”, empregada nos dias que não eram de banho. As expressões em italiano, o vinho molhado no pão, as mãos rudes masculinas que desbravavam os espaços, as mãos hábeis femininas que laboravam do despertar ao anoitecer. A religiosidade pura - ou cega - de um tempo em que a palavra imposta valia e era seguida. Sim, estou cheia de saudade hoje. Fui lendo e ouvindo as vozes do passado que, tal qual as personagens do livro, iam enchendo minha vida de sentido, de pertencimento, de identidade e me transformando no que sou. Muita obrigada pelo presente, Rita Dionísio, mineira em cujo olhar habita a receptividade, Flávia Brochetto, gaúcha, em cujo olhar a doçura fez morada, e Rosane Cardoso, gaúcha, para quem a fala deixa transparecer a meiguice que lhe é peculiar. Muito mais do que lembranças de vocês, levo-as comigo com carinho e levarei junto as sensações que o desfrutar do presente me proporcionou. De toda forma, a saudade é a maior das sensações, e que bom poder ter motivos para senti-la.