Três semanas atrás, podei o único galho da minha rosa do deserto. Segui as orientações de uma florista. Tenho outros dois vasos da mesma planta florindo com frequência, por isso, a poda foi necessária para ela voltar a florir. Peguei a tesoura e cortei o galho. Um buquê de folhas verdes caiu em minhas mãos, e o nó do arrependimento se espalhou pelo meu coração. Contemplar o vaso com um pendão apenas, acordar e olhar um único galho, vivo, mas sem uma folhinha que seja: tudo isso era o mesmo que despertar, a cada manhã, a culpa pelo mal que minhas mãos impuseram à flor.
E foi essa sensação que me atravessou nas últimas manhãs. Dias atrás vi um broto, frágil fôlego de renovação, se formando. Fiquei faceira! A vida estava ali se refazendo. A esperança é um sentimento fascinante, ela torna real o almejado, transforma em euforia uma sensação de desânimo. Hoje a surpresa foi ainda maior: não é um broto somente, mas outros três estão nascendo e me dizendo que é preciso desfazer o bordado de Ariadne para permitir que outro fio, com cores vivas, dê forma a outro bordado. Olhei para a minha rosa do deserto e me lembrei que eu também precisei ser podada tantas vezes, eu também já me agarrei a tantos fios de esperança, e em todas as vezes senti dor, mas igualmente, em todas, sobrevivi. E o sobreviver é o que me permitiu florescer, ressurgir mais forte, resignada. Minha rosa do deserto não voltará a ser igual, eu nunca fui a mesma depois das podas por que passei, por certo, porém, minha rosa voltará diferente, com flores a ofertar, com outros galhos e cheia de vida.